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Oficina Laboratório de Projetos

24/01/2017

Esta é uma edição intensiva do grupo de acompanhamento com duração de 4 encontros semanais. Esta é uma oficina prática pensada para quem tem algumas ideias e está querendo mandar pra aquele edital ou organizar um projeto que está parado, por exemplo.

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Tempestade

05/12/2016

Projeto contemplado pelo edital PROAC Artes Integradas 2015
Exibido na Casa Das Caldeiras (São Paulo) e Oficina Cultural Pagu (Santos)
Veja mais fotos e vídeos no Facebook do projeto

Tempestade na Casa das Caldeiras. foto: Fabricio Remiglio

Tempestade na Casa das Caldeiras. foto: Fabricio Remiglio

A Tempestade começou relembrando as pinturas de William Turner e os textos de Shakespeare. Porém, aos poucos, foi se elaborando que o fio condutor deste projeto consiste nas conexões das práticas processuais dos cinco artistas participantes: DUO b (Marcelo Bressanin e Pedro Ricco), JpAccacio, Matheus Leston e Victor Leguy.

Em meio à imprevisibilidade de nuvens de condensação de ideias, durante 10 meses, acompanhei os encontros de colaboração/residência artística desses artistas na DA HAUS. Ali, conviveram diálogos intensos, experiências atravessaram conceitos, e paulatinamente, foi-se dando forma ao que poderíamos chamar de “instalação final”, assim entre aspas, considerando o movimento contínuo do processo de criação.

Durante as experimentações – projeções de imagens, reflexões em espelhos e placas de acrílico, composições de áudios, movimentos da luz e seus desenhos –, emergiram as diferentes visões de cada artista e suas possibilidades de interação. Ao documentar essas ações, havia algumas imagens que só eram visualizadas pelo aparato-olho-fotográfico. Ou ainda, o que um percebia, não necessariamente era o que o outro observava ou escutava. Entre as diferentes percepções do trabalho, foram elaborados diversos questionamentos sobre como se constituíam as imagens e os sons perante a Tempestade.

Começou-se, então, a projetar as próprias imagens de registro, considerando o viés processual que se espalhava perante esta vivência. Essas imagens foram captadas novamente em alta resolução e, posteriormente, foram relidas e programadas via software. Outros desenhos-registros foram realizados. Trilhas sonoras foram compostas, seguindo a mesma metodologia de composição e decomposição.

Por fim, as paisagens audiovisuais ocupam o espaço expositivo, preenchendo-o com sobreposições de uma narrativa orgânica. Entre as imagens figurativas da documentAÇÃO, grafismos e imagens abstratas, é possível entrever que tudo está em deslocamento. Pode-se afirmar que os momentos de percepção da experiência são efêmeros: quando alguém chama para olhar, aquilo já não está mais no mesmo lugar.

Nesta tempestade processual em constante colaboração e atualização, cada pessoa do público é convidada a escolher o ponto de vista (ou o farol) de sua própria tempestade. Entre as diversas elaborações de discursos que transpassam a vida contemporânea, não ouvimos aqui uma voz específica (e muito menos autoritária do autor e/ou de autores). Emerge uma comunicação que não sabemos ao certo como objetivar, mas que aglutina e expressa a potência do processo de criação.

Derivas mestiças

05/11/2016

Sobre Jorge Feitosa1

Jorge Feitosa, série #3 - Corpo Habilidoso II, 2012/2013

Jorge Feitosa, série #3 – Corpo Habilidoso II, 2012/2013

Jorge Feitosa reflete sobre as buscas de uma identidade mestiça. O artista nasceu e cresceu em Porto Velho (Rondônia), mas vive na cidade de São Paulo há 30 anos. Mas, além das referências biográficas, seu trabalho procura discutir uma concepção ampliada entre as forças que interferem na constituição das subjetividades do indivíduo contemporâneo.

As 5 fotografias da série #3 – Corpo Habilidoso II, que você vê neste livro e que foram doadas para o acervo do Museu Universitário de Uberlândia, fazem parte de um grande projeto intitulado Memórias – a Busca de um Corpo. Realizado entre 2011 e 2013, esse projeto engloba mais 2 séries fotográficas (Corpo que Sente e Corpo Habilidoso I) e 7 vídeos. Todos os trabalhos consistem em ações para a câmera às margens de rios que rodeiam a cidade de Porto Velho e em outros locais que de algum modo ativam a memória afetiva da infância do artista. Todas as ações procuram investigar as possibilidades da memória do corpo, observando aquilo que emerge no desejo e na procura por uma situação de pertencimento. Nessas perambulações, há uma constante tentativa de mimese frustrada, evidenciada por meio de diferentes pontos de vista.

Entre essas derivas, a série #3 – Corpo Habilidoso II engloba fotografias de ações em que o artista, vestido com terno e gravata, caminha, senta, pendura-se e debruça-se sobre os galhos de uma árvore tombada no Rio Candeias e, ao final, banha-se nas águas do mesmo rio. Entre o pertencimento a lugar nenhum e a diversos lugares, o artista realiza essas ações sozinho tendo apenas a câmera como companhia. A possibilidade do público só acessá-las por registros ressalta a subjetividade da percepção e a impossibilidade de outros corpos vivenciarem a mesma experiência. Nas tentativas do homem urbano reencontrar suas memórias anteriores perante a natureza, estas imagens atravessam conceitos como desterritorialização, desenraizamento e deslocamento.

Entre as dobras desta vivência, entre a possibilidade de reinvenção do passado e do que arde no presente, algo fica em suspensão. Outros trabalhos de Jorge discutem essa questão da busca da identidade entre Rondônia e São Paulo como em Corpo do Artista (2012). Nessa série de fotografias realizadas para a câmera, o artista cobre seu rosto com madeiras coletadas em queimadas no estado de Rondônia. Já, Sobre Viver em Suspensão (2016) consiste em uma performance de longa duração em que o artista permanece por diversas horas em uma rede de descanso suspensa a uma altura de aproximadamente 4 metros de altura do chão de um espaço expositivo. Por fim, em Corpo Ocupa Espaço Diminuto #I e #II, seu trabalho mais recente em vídeo, o artista está novamente vestido de terno, mas as imagens submersas e um tanto claustrofóbicas mostram um sujeito habitando as águas de uma piscina.

Pensando em conjunto com Amálio Pinheiro e Nestor García Canclini, pode-se considerar o trânsito entre as culturas, que se atualiza por meio de elementos heterogêneos em contínua interação. Neste sentido, é possível refletir sobre a identidade subjetiva e cultural em variação, como a rearticulação constante entre as diferenças. De acordo com Pinheiro2, “o mais importante a ser investigado nos processos de mestiçagem são essas intertraduções, uma sintaxe interna nas junturas das dobras encrespadas dos textos”, vozes, imagens e corpos. É com esse espaço “entre” e mestiço que o trabalho de Jorge convive.

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1: Texto originalmente publicado no livro: Obras comentadas: doações à coleção do Museu Universitário de Arte – MUnA – Universidade Federal de Uberlândia / Andrés Hernández (organizador) – São Paulo: edição do autor, 2016.

2:PINHEIRO, Amálio (org.). O meio é a mestiçagem. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2009, p. 12.

Canção da Estrada [Song of the Road]

05/09/2016

[Read the english version bellow]

Microsoft Word - convite virtual 1.docx

Texto crítico para a exposição individual de Cristiane Mohallem no Dconcept Escritório de Arte.

Acredito que muito do não visto também está aqui.
( … )
(Eu e os meus não convencemos por argumentos,
símiles, rimas, nós convencemos pela nossa presença).
Walt Whitman

A estrada é uma palavra que oferece metáforas de transformação da vida cotidiana. Envolve decomposições poéticas de outra palavra: a liberdade. Muitas são as poesias e as músicas que expressam esse desejo de simplesmente deixar-se ir. “Estrada” é também título de uma das obras desta exposição em que Cristiane Mohallem torna-se viajante por meio das linhas do bordado. Os trabalhos expostos aqui foram realizados em residências artísticas na Itália, França e Estados Unidos ou logo após o seu retorno.

Entre o que está longe e o que está perto, Cristiane perambula pelos rastros das luzes que emanam daqueles lugares visitados. A artista compõe “canções” sobre a presença das coisas, sobre a percepção do olhar que poderia passar desapercebido, sobre pausas para contemplação do que sempre estará em movimento. É esse tempo expandido da viagem (e também o da ação de bordar) que formam as paisagens de “Elm Tree”, “Ilha”, “Pedra do Mar (III)”, “Oliveiras” e da série “Through this Night a Mightily Form Moves”. Nesse vivenciar intenso, duas pinturas – “Autorretrato” e “O Viajante” – são contrapontos que afirmam a experiência do estar lá. Por um lado, essas pinturas personificam possíveis passantes. Por outro, ao não evidenciar seus rostos, deixam em aberto futuras identificações.

Entre as diversas poesias que Cristiane carrega em sua bagagem, os simbolismos aos poucos vão se constituindo como urdiduras. Cores tornam-se texturas. Linhas desenham. Tecidos transformam-se em telas. Assim, os caminhos são traçados e os sentidos da viagem (se é que se pode especificá-los) tomam forma na volta para casa. Aqui, a exposição emerge como um álbum – para ser contemplado em busca de outras lembranças.

Ananda Carvalho
Curadora e Crítica de arte

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Song of the Road 

Critical text about Cristiane Mohallem’s solo show at Dconcept Escritório de Arte (São Paulo, Brazil).

 

I believe that much unseen is also here.
(. . .)
(I and mine do not convince by arguments,
similes, rhymes, we convince by our presence).
Walt Whitman

“Road” is a word that offers metaphors of transformation of everyday life. It involves poetic decompositions of yet another word—freedom. Many are the poetries and songs that express this longing for simply letting oneself go. “Road” is also the title of one of the works in this exhibition, in which Cristiane Mohallem becomes a traveler through her embroidery threads. The works exhibited here were made in artistic residencies in Italy, France, and the United States, or right after her return to Brazil.

Between what is close and what is far, Cristiane wanders through the traces of light emitted by the places she visited. The artist writes “songs” about the presence of things, the perception of seeing what could go unnoticed, the pauses for contemplating what will always be in motion. It is this expanded travel time (as well as that of the action of embroidering) that forms the landscapes of “Elm Tree”, “Ilha” (Island), “Pedra do Mar” (III) (Sea Stone [III]), “Oliveiras” (Olive Trees), and the series “Through this Night a Mightily Form Moves”. In this intense experiencing, two paintings—”Autorretrato” (Self-Portrait) and “O Viajante” (The Traveler)—are counterpoints that affirm the feeling of being present. If on the one hand these paintings personify possible passersby, on the other, because their faces are not revealed, their future identification remains undetermined.

Among the numerous poetries Cristiane carries in her background, symbolisms are gradually incorporated into the weaving. Colors turn into textures. Lines form drawings. Fabrics become canvases. Paths are thus outlined, and the meanings of the journey (if they are open to specification), take shape upon returning back home. Here, the exhibition emerges as an album, to be contemplated in search of other memories.

Ananda Carvalho
Curator and Art Critic

Sobre os boatos da “Performance”

28/07/2016

Sobre o trabalho Performance de Elen Braga, realizado na Praça das Artes (São Paulo)

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Em julho de 2016, Elen Gruber em conjunto com 7 convidadas, artistas cujos trabalhos enfocam a performance e/ou o corpo, realizou a primeira versão de “Performance”. Com o objetivo de, numa possível comparação, não apresentar nenhuma diferença, essas artistas vestidas com roupas iguais deveriam realizar o mesmo gesto repetitivo e simultâneo: correr em grupo por um caminho previamente delimitado no espaço externo da Praça das Artes (São Paulo). No início da ação, o público recebeu uma folha para avaliação de desempenho das participantes. Essa folha continha uma foto 3X4 de cada artista e textos que as apresentavam (constituídos por trechos editados de seus statements ¹). Após a votação do público, Elen colou as folhas de avaliação em uma parede, organizando-as num formato de gráfico de performance.

Escrita essa breve sinopse do que pretendia-se divulgar nos meios de comunicação antes da ação acontecer, pode-se relatar o que foi performado. A “coreografia” da corrida coletiva se sucedeu pelos momentos iniciais. Mas, após os primeiros 10 minutos, o improviso levou cada menina a apresentar movimentos que as identificassem em alguma subjetividade. Elas correram em direções diferentes, reuniram-se em pequenos grupos, reinventaram gestos para se aproximarem do público e, simplesmente, correram.

A partir dessas ações de movimento no espaço, como o público as relacionaria com as ideias sobre performance situadas na História da Arte? E, com o significado literal da palavra? O dicionário Cambridge define performance como “a ação de entreter outras pessoas como dançar, cantar, atuar ou tocar músicas; o desempenho de uma pessoa, máquina, etc ao executar um trabalho ou atividade”. Considerando ambos significados, como se constitui a avaliação do que seria uma performance? E, ainda, qual seria a melhor performance?

Do lado de cá, sentada em um banquinho, olhando para as minhas folhas de avaliação, algumas questões ressoavam: como estabelecer um critério de diferenciação? Como identificar cada participante (as roupas eram iguais, os perfis semelhantes, etc.)? O que o público vê quando vê? O que relatar da memória sem (ou com) pitacos de ficção?

Entre as possíveis formas de leitura do outro, o olhar confunde-se entre aqueles retratos, textos e as meninas que continuam a correr. Todos deram notas. Parâmetros para isso? Depende do ponto de vista. Nas folhas de avaliação, havia escritos, rasuras e reescritos na busca de quem seria aquela menina que estaria “ganhando”.

Houve comentários padrões de competição (“terminou com excelência”, “tem uma ótima resistência”, etc.); houve comentários sobre o cabelo; houve comentários a partir de uma expectativa de relacionamento (“eu daria like no tinder” com adicional de um número de telefone), houve comentários que poderiam ser identificados como depreciativos (“correu igual uma pamonha”, enquanto a artista fazia poses para chamar a atenção daquele que a procurava), houve quem as confundiu, houve (até) quem não identificou foto e artista participante (“não te vi”).

Eu concordei com a pessoa que criou uma nota 10 (na folha havia opções de votar de 1 a 5) para a artista que foi a primeira a parar de correr. Parecia que ganharia quem fosse a última a parar, mas existiria alguma artista que ganharia nesta “Performance”? Ou ainda, como se estabelece um vencedor?²

A ideia de competição, em seu sentido literal e metafórico, é também uma questão central neste trabalho. “Performance” reflete sobre as demandas constantes de que cada indivíduo deve oferecer o seu melhor (e não vamos entrar na discussão da meritocracia aqui). Também discute o julgar e ser julgado recorrente das relações cotidianas. Nesta competição hipotética, como determinar qual é o vencedor? Quais são os resultados, se cada “jurado” poderia determinar os seus próprios critérios de avaliação?

Entre estas palavras alinhavadas, eu ainda poderia escrever aqui sobre o que continua após uma ação que inicialmente seria tratada como efêmera. Elen uma vez me disse sobre a documentação, que “aquilo que vem depois é construído como um boato”. As subjetividades das leituras, dos contextos de vivência (e memórias) e das interpretações não são específicas. São multiplicações de um “telefone sem fio”. E, daí eu escreveria sobre a “poética do resíduo” e pensaria sobre todas as potencialidades da continuidadade, da documentAÇÃO. Escrevo documentAÇÃO considerando a ideia de ativação. E, dentro dessas possibilidades de autonomia dos registros, como Elen proporá continuidades para este trabalho?

Por fim (pensando no processo de criação de Elen Gruber, pensando nas experiências cotidianas de todos nós), “Performance” procura refletir sobre critérios de avaliação e diferenciação nos mais variados âmbitos. Também questiona as determinações de parâmetros, as classificações de qualidade e as subjetividades de percepção de qualquer experiência. E, aqui, só poderíamos concluir que tudo depende do ponto de vista contextual, sociológico, cultural, político, subjetivo de cada um.

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Notas (ou anotações de questionamentos para uma possível continuidade deste texto)

1: Mas, o que é mesmo statement? Essa palavra não está nos dicionários em língua portuguesa. Vejamos, então, os dicionários de inglês: statement significa “algo que é dito ou escrito oficialmente, ou uma ação realizada para expressar uma opinião”. No “mundo” das artes, statement é um certo texto que o artista faz para expressar as questões principais da sua pesquisa e processo artístico. Pode ser poético, experimental (será mesmo?), o importante é que seja objetivo, coerente e que o júri possa se aproximar do seu trabalho sem o conhecer (eu diria, em uma oficina de portfólios). Entretanto, o que é statement para aqueles passantes no centro antigo de São Paulo numa noite fria de julho? Palavra esquisita que as pessoas podem inventar diferentes significados.

2: Eu poderia também observar do ponto de vista do circuito da arte, da experiência de participar de júris de seleção, da experiência de enviar projetos que esperam ser selecionados, da experiência de conviver cotidianamente com artistas na espera de um projeto ser aprovado, ou da alegria (ou da tristeza) de um nome estar (ou não) numa lista de classificação.

Uma história da infância

23/06/2016

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Texto curatorial para a exposição individual de Rosilene Fontes (Dconcept Escritório de Arte, São Paulo, junho/2016)

Era uma vez, uma artista que há tempos desejava desenhar pássaros. Num dia de outono, lendo sobre Leonardo da Vinci, descobriu que ele escreveu um livro intitulado Fábulas e lendas e que sua única lembrança da infância era um sonho com pássaros. Foi nessa época que Rosilene Fontes começou a contar Uma história da infância, narrativas em que a ficção mescla-se às suas memórias pessoais.

Nos trabalhos da artista, a apropriação, a colagem, a desconstrução e a reconstrução são procedimentos recorrentes. Nos seus desenhos, utiliza colagens realizadas anteriormente (com as Damas de Leonardo) como base para observação. Além das ações de adição, emergem as de apagamento como em Milhafre, desenho em que apenas a cabeça do pássaro permanece, chamando a atenção para o fato de que a discussão sobre a memória envolve o esquecimento. A apropriação também está presente em Ninho (instalação produzida a partir de um ninho encontrado na varanda da casa da artista) e em outras caixas-objetos como Casa árvore e Casa ninho.

A série que empresta o nome à exposição engloba caixas-objetos construídas a partir do livro Fábulas e lendas. Rosilene seleciona histórias que se relacionam com a sua memória: da Cotovia, do Pavão, do Cisne, do Pelicano, da Águia, por exemplo. A artista reinventa seus títulos e conteúdos, utilizando-os como suportes para materializar outras narrativas, alinhavadas em outros tipos de páginas. Além das lendas citadas, a artista relata também a história da Garça através de um desenho-instalação que amplia suas caixas-objetos para o espaço expositivo.

Uma característica das fábulas e das lendas é que estas propõem uma moral ou um ensinamento. As obras de Rosilene são espaços de fabulações que provocam outras leituras. Pode-se afirmar que nestas sobreposições de imagens, a artista propõe que os pássaros – ou os visitantes da exposição – voem por outros mapas, por outros livros e por uma (outra) história da infância.

Em suas marcas: Sala de exercícios [On your marks: Exercise Room]

25/05/2016

[Read the english version below]

A exposição Em Suas Marcas apresenta duas instalações da artista Elen Gruber que problematizam a noção de competição por meio de materiais, símbolos e propostas distintas. A obra A Grande Honra ao Mérito, com curadoria de Raphael Fonseca, é composta por uma coleção de cerca de 300 troféus transferidos por seus próprios ganhadores à artista. São exibidos também os certificados dessa transferência e um livro-fichário com as histórias dos ganhadores. Já a instalação Sala de Exercícios, com curadoria de Ananda Carvalho, cria um ambiente que remete a uma academia de ginástica. Nela, Elen propõe uma série de atividades individuais e em dupla que derivam do padrão de forma, força e resistência de seu próprio corpo, convidando o público a experimentar essas ações. Com esses dois trabalhos inéditos, a mostra propõe relações entre os limites físicos e suas possibilidades de reconhecimento através das artes visuais.

Em Suas Marcas faz parte do projeto Espaço Galeria SESI-SP, que apresenta mostras itinerantes de diferentes técnicas e formatos. Criada em 2013, a iniciativa oferece exposições de artes visuais especialmente desenvolvidas para os centros de atividades do SESI-SP, propiciando a circulação de obras originais com embasamento curatorial e expografia específica.

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Texto curatorial sobre o trabalho Sala de exercícios de Elen Gruber

Elen Gruber convida a todos para participar de sua Sala de exercícios. Neste ambiente que remete a uma academia, a artista propõe uma série de atividades individuais e em dupla que derivam do padrão de forma, força e resistência de seu próprio corpo ou da sua relação com outro corpo. Considerando que os visitantes da exposição experimentam uma atividade física inventada pela artista e que não é encontrada em espaços esportivos, este trabalho provoca uma discussão sobre a competição, os limites e as possibilidades (ou as tentativas) de estabelecimento de relações pessoais e sociais.

Em Sala de exercícios, o convite ao público ocorre através de instruções disponibilizadas em uma televisão que exibe uma performance editada como uma espécie de vídeo-aula e em cartazes com desenhos que explicam como realizar os exercícios. Esses cartazes também evidenciam as tentativas da artista de praticar tais ações e como estas foram sendo alteradas a partir de suas repetições que ocorrem desde janeiro de 2015. Sob esse viés, Sala de exercícios procura desenvolver dispositivos de ativações processuais: experimenta o espaço da galeria para algo que é construído em movimento, na medida em que desloca o público do seu lugar passivo da contemplação.

Este trabalho emerge com o início de uma nova fase nas produções de Elen Gruber, em que a artista passa a elaborar proposições performativas que só acontecem com a participação do outro (como em A grande honra ao mérito). Nesta convocação dos participantes, espera-se que Sala de exercícios seja vivenciada a partir das “marcas” (visíveis e invisíveis) de cada um. As “marcas” – que dão título a essa exposição – emergem no desejo de atingir um resultado (mesmo hipotético), na percepção dos traços que caracterizam e distinguem o outro, na desconstrução do que poderia ser um padrão, na proposição de formatos inventados, na revelação daquilo que pode ser específico, mas que pode ser colocado em relação.

Participação: Sheila Lima
Fotos: Luísa Estanislau
Produção: Melanina Produções Culturais
Cenografia: Estudio Extraordinario
Curadoria: Ananda Carvalho
Local: Sesi São José dos Campos

Curatorial text about the installation Sala de exercícios

Elen Gruber invites all viewers to participate in her Sala de exercícios (Exercise Room). In this gym-like environment, the artist proposes a series of activities, both individual and in pairs, that stem from the pattern of shape, strength and resistance of her own body or from her relationship with another body. Considering that visitors experience a physical activity invented by the artist and that cannot be found in regular sports areas, this work raises a debate on competition and on the limits and possibilities—or attempts—of establishing personal and social relationships.

In Sala de exercícios, viewers are invited through instructions made available on a television set showing a performance edited as a video class and in posters with drawings explaining how the exercises must be performed. The posters also show the artist’s attempts at performing the actions and how they have changed throughout its iterations, which have been occurring since January 2015. Under this perspective, Sala de exercícios is an attempt at developing devices for processual activation: it experiments with the gallery space for something that is built in motion, as it displaces viewers from their passive place of contemplation.

This work emerges with the beginning of a new period in Elen Gruber’s production, in which the artist now elaborates performative propositions that only take place with the participation of another—such as in the work A grande honra ao mérito (The Great Merit Award). By inviting participants, Sala de exercícios is expected to be experienced from the “marks” (both visible and invisible) of each one. The “marks”—that give the exhibition its title—emerge in the intention of achieving a result—although hypothetical—, in perceiving the traces that characterize and distinguish the other, deconstructing what could be a pattern, proposing invented formats, and revealing what may be specific but can exist within a relationship.

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