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Fig. 1 e Fig. 1 espelhada alternadas

16/08/2017

Texto curatorial da exposição individual de Cristina Suzuki na Adelina Galeria

Cristina Suzuki - da série Imprinting - Simulações Edição 01 - Fazenda Serrinha

 

Os trabalhos desta exposição individual de Cristina Suzuki partem da série Imprinting, desenvolvida desde 2013, e que teve início com esboços desenhados em pequenos cadernos. Entre as diversas formas possíveis, a artista deteve-se em uma, que denominou Fig. 1 (abreviatura de Figura 1) e que se tornou o elemento base para inúmeras combinações. Os títulos das obras dessa série, assim como o desta exposição, são a descrição de seu processo de criação e enfatizam a execução metódica e o movimento que a artista imprime na forma. É por meio desses procedimentos que Cristina compõe diferentes desenhos partindo sempre de um mesmo elemento.

Um procedimento recorrente no processo de criação de Cristina é a não delimitação das mídias e a constante intersecção entre elas. Após os desenhos feitos à mão, Fig. 1 foi redesenhada digitalmente, virou carimbo de tamanhos diversos, foi espelhada e alternada, e carimbou diferentes locais. Centros culturais, espaços alternativos e outras instituições tiveram suas paredes ocupadas por essa operação de multiplicação. Quando suas composições saíram do papel para ativar o espaço físico, tornou-se necessário desenvolver simulações digitais1 para visualizar como a ação de carimbar seria realizada. O vídeo Figura 1 virada -90 graus sobreposta à figura 1 espelhada, alinhada à esquerda e no topo, esta sequência virada 90 graus e deslocada 100% na horizontal e estas sequências viradas 180 graus deslocadas 100% na vertical consiste em uma animação dessa simulação, reproduzindo virtualmente o gesto de carimbar as paredes da Adelina Galeria.

Outro desdobramento desse trabalho pode ser visto em Imprinting – Simulações Portáteis, edições de posts feitos na rede social Instagram2 com imagens de simulações digitais de instalações em galerias, museus e outros espaços culturais que possuem alguma espécie de edital de seleção3. Assim como o celular, que pode ser consultado a qualquer momento, Imprinting – Simulações Portáteis emerge como uma exposição “de bolso”, em permanente circulação, para ser acessada quando for desejada.

A exposição Fig. 1 e Fig. 1 espelhada alternadas procura refletir sobre os processos de reprodutibilidade na arte e suas possibilidades de pulverizá-la. É na repetição do gesto criador de sistemas que as proposições de Cristina acontecem. A exposição não se detém na materialidade (em que as paredes são pintadas com tinta) ou na veridicidade dos fatos (se os trabalhos publicados no Instagram realmente aconteceram); ela busca colocar em evidência o gesto artístico para propor discussões que vão além de questões formais e estéticas.

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________

[1][preâmbulo no. 1] O circuito da arte contemporânea demanda uma contínua apresentação de projetos por meio de editais, nos quais se espera que o artista apresente uma proposição já consolidada e adequada ao espaço expositivo. Ou seja, espera-se que o artista envie uma maquete digital, além de textos que expliquem objetivamente e conceitualmente o que pretende exibir.

2[preâmbulo no. 2] Observamos não só no circuito da arte, mas na sociedade contemporânea como um todo, uma necessidade de o indivíduo visualizar-se ou publicar-se imediatamente nas redes sociais para ser reconhecido pelo outro e para que passe a integrar o fluxo de informações nas redes. O celular, a presença massiva das câmeras digitais e a internet móvel reconfiguram o olhar para que o registro e a distribuição da vivência sejam o ponto de partida para as experiências.

3[preâmbulo no. 3] Apesar do circuito artístico contemporâneo brasileiro ter crescido consideravelmente desde o início dos anos 2000, as instituições não dão conta de exibir a produção de todos os artistas. Para citar apenas um exemplo, o edital do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo (um dos mais conceituados do país) recebeu, em 2017, 531 inscritos na categoria exposições individuais para selecionar apenas doze artistas. Esses números significam que nem sempre um projeto deixa de ser selecionado por não ser bom. Em conversas com outros colegas participantes de júri de seleção, constatamos que pelo menos 10% dos projetos inscritos, ou seja, aproximadamente 50 são muito bons. Portanto, considerando esse exemplo do CCSP, surge a questão: o que fazer com os mais de 38 projetos classificados como muito bons, mas que ficaram de lado, pois apenas nove poderiam ser selecionados?

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