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Derivas mestiças

05/11/2016

Sobre Jorge Feitosa1

Jorge Feitosa, série #3 - Corpo Habilidoso II, 2012/2013

Jorge Feitosa, série #3 – Corpo Habilidoso II, 2012/2013

Jorge Feitosa reflete sobre as buscas de uma identidade mestiça. O artista nasceu e cresceu em Porto Velho (Rondônia), mas vive na cidade de São Paulo há 30 anos. Mas, além das referências biográficas, seu trabalho procura discutir uma concepção ampliada entre as forças que interferem na constituição das subjetividades do indivíduo contemporâneo.

As 5 fotografias da série #3 – Corpo Habilidoso II, que você vê neste livro e que foram doadas para o acervo do Museu Universitário de Uberlândia, fazem parte de um grande projeto intitulado Memórias – a Busca de um Corpo. Realizado entre 2011 e 2013, esse projeto engloba mais 2 séries fotográficas (Corpo que Sente e Corpo Habilidoso I) e 7 vídeos. Todos os trabalhos consistem em ações para a câmera às margens de rios que rodeiam a cidade de Porto Velho e em outros locais que de algum modo ativam a memória afetiva da infância do artista. Todas as ações procuram investigar as possibilidades da memória do corpo, observando aquilo que emerge no desejo e na procura por uma situação de pertencimento. Nessas perambulações, há uma constante tentativa de mimese frustrada, evidenciada por meio de diferentes pontos de vista.

Entre essas derivas, a série #3 – Corpo Habilidoso II engloba fotografias de ações em que o artista, vestido com terno e gravata, caminha, senta, pendura-se e debruça-se sobre os galhos de uma árvore tombada no Rio Candeias e, ao final, banha-se nas águas do mesmo rio. Entre o pertencimento a lugar nenhum e a diversos lugares, o artista realiza essas ações sozinho tendo apenas a câmera como companhia. A possibilidade do público só acessá-las por registros ressalta a subjetividade da percepção e a impossibilidade de outros corpos vivenciarem a mesma experiência. Nas tentativas do homem urbano reencontrar suas memórias anteriores perante a natureza, estas imagens atravessam conceitos como desterritorialização, desenraizamento e deslocamento.

Entre as dobras desta vivência, entre a possibilidade de reinvenção do passado e do que arde no presente, algo fica em suspensão. Outros trabalhos de Jorge discutem essa questão da busca da identidade entre Rondônia e São Paulo como em Corpo do Artista (2012). Nessa série de fotografias realizadas para a câmera, o artista cobre seu rosto com madeiras coletadas em queimadas no estado de Rondônia. Já, Sobre Viver em Suspensão (2016) consiste em uma performance de longa duração em que o artista permanece por diversas horas em uma rede de descanso suspensa a uma altura de aproximadamente 4 metros de altura do chão de um espaço expositivo. Por fim, em Corpo Ocupa Espaço Diminuto #I e #II, seu trabalho mais recente em vídeo, o artista está novamente vestido de terno, mas as imagens submersas e um tanto claustrofóbicas mostram um sujeito habitando as águas de uma piscina.

Pensando em conjunto com Amálio Pinheiro e Nestor García Canclini, pode-se considerar o trânsito entre as culturas, que se atualiza por meio de elementos heterogêneos em contínua interação. Neste sentido, é possível refletir sobre a identidade subjetiva e cultural em variação, como a rearticulação constante entre as diferenças. De acordo com Pinheiro2, “o mais importante a ser investigado nos processos de mestiçagem são essas intertraduções, uma sintaxe interna nas junturas das dobras encrespadas dos textos”, vozes, imagens e corpos. É com esse espaço “entre” e mestiço que o trabalho de Jorge convive.

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1: Texto originalmente publicado no livro: Obras comentadas: doações à coleção do Museu Universitário de Arte – MUnA – Universidade Federal de Uberlândia / Andrés Hernández (organizador) – São Paulo: edição do autor, 2016.

2:PINHEIRO, Amálio (org.). O meio é a mestiçagem. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2009, p. 12.

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