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Sobre os boatos da “Performance”

28/07/2016

Sobre o trabalho Performance de Elen Braga, realizado na Praça das Artes (São Paulo)

performance-elenbraga

Em julho de 2016, Elen Gruber em conjunto com 7 convidadas, artistas cujos trabalhos enfocam a performance e/ou o corpo, realizou a primeira versão de “Performance”. Com o objetivo de, numa possível comparação, não apresentar nenhuma diferença, essas artistas vestidas com roupas iguais deveriam realizar o mesmo gesto repetitivo e simultâneo: correr em grupo por um caminho previamente delimitado no espaço externo da Praça das Artes (São Paulo). No início da ação, o público recebeu uma folha para avaliação de desempenho das participantes. Essa folha continha uma foto 3X4 de cada artista e textos que as apresentavam (constituídos por trechos editados de seus statements ¹). Após a votação do público, Elen colou as folhas de avaliação em uma parede, organizando-as num formato de gráfico de performance.

Escrita essa breve sinopse do que pretendia-se divulgar nos meios de comunicação antes da ação acontecer, pode-se relatar o que foi performado. A “coreografia” da corrida coletiva se sucedeu pelos momentos iniciais. Mas, após os primeiros 10 minutos, o improviso levou cada menina a apresentar movimentos que as identificassem em alguma subjetividade. Elas correram em direções diferentes, reuniram-se em pequenos grupos, reinventaram gestos para se aproximarem do público e, simplesmente, correram.

A partir dessas ações de movimento no espaço, como o público as relacionaria com as ideias sobre performance situadas na História da Arte? E, com o significado literal da palavra? O dicionário Cambridge define performance como “a ação de entreter outras pessoas como dançar, cantar, atuar ou tocar músicas; o desempenho de uma pessoa, máquina, etc ao executar um trabalho ou atividade”. Considerando ambos significados, como se constitui a avaliação do que seria uma performance? E, ainda, qual seria a melhor performance?

Do lado de cá, sentada em um banquinho, olhando para as minhas folhas de avaliação, algumas questões ressoavam: como estabelecer um critério de diferenciação? Como identificar cada participante (as roupas eram iguais, os perfis semelhantes, etc.)? O que o público vê quando vê? O que relatar da memória sem (ou com) pitacos de ficção?

Entre as possíveis formas de leitura do outro, o olhar confunde-se entre aqueles retratos, textos e as meninas que continuam a correr. Todos deram notas. Parâmetros para isso? Depende do ponto de vista. Nas folhas de avaliação, havia escritos, rasuras e reescritos na busca de quem seria aquela menina que estaria “ganhando”.

Houve comentários padrões de competição (“terminou com excelência”, “tem uma ótima resistência”, etc.); houve comentários sobre o cabelo; houve comentários a partir de uma expectativa de relacionamento (“eu daria like no tinder” com adicional de um número de telefone), houve comentários que poderiam ser identificados como depreciativos (“correu igual uma pamonha”, enquanto a artista fazia poses para chamar a atenção daquele que a procurava), houve quem as confundiu, houve (até) quem não identificou foto e artista participante (“não te vi”).

Eu concordei com a pessoa que criou uma nota 10 (na folha havia opções de votar de 1 a 5) para a artista que foi a primeira a parar de correr. Parecia que ganharia quem fosse a última a parar, mas existiria alguma artista que ganharia nesta “Performance”? Ou ainda, como se estabelece um vencedor?²

A ideia de competição, em seu sentido literal e metafórico, é também uma questão central neste trabalho. “Performance” reflete sobre as demandas constantes de que cada indivíduo deve oferecer o seu melhor (e não vamos entrar na discussão da meritocracia aqui). Também discute o julgar e ser julgado recorrente das relações cotidianas. Nesta competição hipotética, como determinar qual é o vencedor? Quais são os resultados, se cada “jurado” poderia determinar os seus próprios critérios de avaliação?

Entre estas palavras alinhavadas, eu ainda poderia escrever aqui sobre o que continua após uma ação que inicialmente seria tratada como efêmera. Elen uma vez me disse sobre a documentação, que “aquilo que vem depois é construído como um boato”. As subjetividades das leituras, dos contextos de vivência (e memórias) e das interpretações não são específicas. São multiplicações de um “telefone sem fio”. E, daí eu escreveria sobre a “poética do resíduo” e pensaria sobre todas as potencialidades da continuidadade, da documentAÇÃO. Escrevo documentAÇÃO considerando a ideia de ativação. E, dentro dessas possibilidades de autonomia dos registros, como Elen proporá continuidades para este trabalho?

Por fim (pensando no processo de criação de Elen Gruber, pensando nas experiências cotidianas de todos nós), “Performance” procura refletir sobre critérios de avaliação e diferenciação nos mais variados âmbitos. Também questiona as determinações de parâmetros, as classificações de qualidade e as subjetividades de percepção de qualquer experiência. E, aqui, só poderíamos concluir que tudo depende do ponto de vista contextual, sociológico, cultural, político, subjetivo de cada um.

2016-07-15-19-41-25

 

______________
Notas (ou anotações de questionamentos para uma possível continuidade deste texto)

1: Mas, o que é mesmo statement? Essa palavra não está nos dicionários em língua portuguesa. Vejamos, então, os dicionários de inglês: statement significa “algo que é dito ou escrito oficialmente, ou uma ação realizada para expressar uma opinião”. No “mundo” das artes, statement é um certo texto que o artista faz para expressar as questões principais da sua pesquisa e processo artístico. Pode ser poético, experimental (será mesmo?), o importante é que seja objetivo, coerente e que o júri possa se aproximar do seu trabalho sem o conhecer (eu diria, em uma oficina de portfólios). Entretanto, o que é statement para aqueles passantes no centro antigo de São Paulo numa noite fria de julho? Palavra esquisita que as pessoas podem inventar diferentes significados.

2: Eu poderia também observar do ponto de vista do circuito da arte, da experiência de participar de júris de seleção, da experiência de enviar projetos que esperam ser selecionados, da experiência de conviver cotidianamente com artistas na espera de um projeto ser aprovado, ou da alegria (ou da tristeza) de um nome estar (ou não) numa lista de classificação.

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