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After performing ou as continuidades da performance

24/11/2015

Sobre “Ô de casa!” de Marit Lindberg 

[Leia a versão original em inglês aqui]

 

Em 2014, no contexto da residência rural.scape em São José do Barreiro, Marit Lindberg realizou a performance “Ô de casa!”. Neste trabalho, a artista convidava pessoas a abrirem a janela de suas casas para cantar, tocar, dançar e recitar poesias para um público que os observava da rua. Assim como em outros dos trabalhos de Lindberg, em “Ô de casa!”, a participação da comunidade foi fundamental para a proposição de suas narrativas.

“Ô de casa!” foi um desdobramento da performance Songs of Many Floors, realizada com os moradores de um único prédio na Suécia. Nesta versão, Lindberg procurou conhecer as pessoas que moravam no local para convidá-los a participar do projeto. A dinâmica da performance era organizada por produtores que orquestravam o tempo para que cada apresentação ocorresse logo após o final da anterior.

Em São José do Barreiro, foi diferente: o público era surpreendido ao caminhar pelo centro da pequena cidade. Como em uma procissão, formavam um cortejo que seguia junto pelas ruas. Os espectadores não sabiam quais janelas iriam se abrir, e dependiam da indicação de Lindberg, que parava em frente a uma casa, batia palmas e gritava “Ô de casa!” – expressão usada em cidades do interior do Brasil para substituir os sinais sonoros da campainha. E, neste trabalho, nem sempre, quem performava era morador das casas onde as ações aconteceram.

É importante relatar o processo de criação da performance. O desejo inicial do projeto era construir uma narrativa que resgatasse tradições orais. A artista divulgou na cidade um convite aberto para os ensaios. Crianças, jovens e adultos apresentaram diferentes proposições: para alguns era uma oportunidade de interpretar músicas pop que tocam nas mídias de massa, para outros era uma chance de reativar as músicas tradicionais da memória da região. Nesse diálogo para seleção e discussão havia uma barreira: a língua. Lindberg não falava português e os participantes não falavam inglês. Antes do processo artístico em si, houve trocas culturais e, de ambos os lados, a busca pela tradução, pela descoberta e pela compreensão do outro.

Durante essas trocas entre participantes e artista, pode-se pensar sobre o significado da palavra performance no senso comum. O dicionário Cambridge define performance como “a ação de entreter outras pessoas como dançar, cantar, atuar ou tocar músicas; o desempenho de uma pessoa, máquina, etc ao executar um trabalho ou atividade”. Nesse sentido, para os participantes, não familiarizados com as ações situadas na História da Arte, apresentar-se na performance “Ô de casa!” era um novo desdobramento do que eles poderiam assistir na televisão ou num show.

Já, ao escrever sobre “Ô de casa!” no contexto da arte contemporânea, é possível pensá-la como uma ação performativa. O conceito de performatividade (que emerge da filosofia da linguagem proposta por John Langshaw Austin e tem sido desdobrado por alguns teóricos da arte da performance desde os anos 2000 como Richard Schechner e Philip Auslander) implica a realização de um ato. Por esta perspectiva, as narrativas construídas por “Ô de casa!” em conjunto com os moradores de São José do Barreiro significam a ação de fazer ou instaurar algo. O conceito de performance é, então, ampliado para campos de “movência”. A performatividade emerge na utilização do(s) corpo(s) como ferramenta para ativar a experiência cotidiana da arte e o contexto sociocultural. A produção artística assume um caráter “biopolítico, na medida em que começa a utilizar significados artísticos para produzir e documentar a vida como uma atividade pura” (GROYS, 2008, p. 54)[1]. O diferencial da proposição de Lindberg em envolver a comunidade deixou um desejo de continuidade. Diversas pessoas do público afirmaram, posteriormente, que gostariam que “Ô de casa!” se tornasse uma programação cultural regular da cidade.

A presença, a imersão e o processo criativo em movimento constante são conceitos que emergiam continuamente durante a produção de “Ô de casa!”. Essas características nos fazem pensar nas possibilidades de documentação da performance. Durante a residência em rural.scapes, por muitas vezes, eu e Lindberg conversamos sobre as oposições e confluências entre vivenciar e documentar, além da parcialidade e a subjetividade da documentação. Em “Ô de casa!”, a produção de novas narrativas em uma ação, que era a princípio transitória e efêmera, foi registrada por fotografia e vídeo.

Para o espectador, entretanto, a performance oferece múltiplas possibilidades de apreensão e é sempre uma experiência realizada em um determinado tempo. A recepção corporal e suas sensações não são reproduzíveis nas imagens fotográficas ou nos vídeos. Em tais documentos, a vivência torna-se uma composição de fragmentos. Por outro lado, a documentação consiste na possibilidade de novos trabalhos artísticos, como o vídeo “Ô de casa!” que Lindberg produziu. Com este texto, busca-se documentar mais um ponto de vista, em que o passado se constrói sempre a partir do presente, nos exercícios de suas potenciais reconstruções.

 

[1] GROYS, Boris. Art in the Age of Biopolitics: From Artwork to Art Documentation. In: ______. Art Power. Cambridge: MIT Press, 2008.

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