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Propedêutica das coisas

09/05/2015

Sobre a exposição individual de Pajé

paje

 

Propedêutica, de acordo com o dicionário Houaiss, é um substantivo que significa um “corpo de ensinamentos introdutórios ou básicos de uma disciplina”, ou seja, são estudos indispensáveis que precedem o aprendizado de qualquer “especialização profissional ou intelectual”. Coisas, por sua vez, é um substantivo que expressa algo “que não se quer ou não se pode nomear, tudo quanto existe ou possa existir, de natureza corpórea ou incorpórea”. O que significa, então, tal aprendizado introdutório e obrigatório de um conteúdo abstrato? Nesta exposição, os trabalhos de Pajé provocam a propedêutica da arte e a sua representação das coisas, ora de forma mais figurativa – como em Coisas para o pintor e Propedêutica das cores –, ora de forma mais abstrata e subjetiva – como em Propedêutica da minha pintura e Valorizo a arte.

Propedêutica da minha pintura são pinturas-performances-objetos que Pajé produziu como seu trabalho de conclusão de graduação. Ao longo de seis meses, mais de 35 telas foram pintadas incluindo registros de ideias do artista e referências que documentam discussões conceituais por meio da ação de pintar. Posteriormente, as telas foram dobradas em diversas camadas passando a constituir um objeto/conhecimento a ser aprendido e que aguarda as decisões do público para o seu uso.

Tais possibilidades de aprendizado são complementadas com Coisas para o pintor – uma série de pinturas a óleo realizada a partir da observação de objetos que possam ser representativos para um pintor – e com Propedêutica das cores – uma série de fotografias que registra uma ação realizada na residência Casa Pausa, em Lima, Peru (2014). Neste trabalho, Pajé pintou 50 pequenos quadrados com uma grande variedade de tons de tinta óleo. Posteriormente, em lugares públicos e dentro do espaço expositivo da feira Casa Pausa, o artista ofereceu para que os transeuntes escolhessem um destes recortes de cor em troca de uma foto da pessoa exibindo a cor selecionada. A “cor” permaneceu com o participante e a fotografia da pessoa é agora exposta com o seu nome embaixo.

Por fim, é preciso ampliar o aprendizado da ação artística para o sistema da arte. Valorizo a arte é uma intervenção sobre notas de dinheiro peruano da década de 80 fora de circulação e desvalorizado. Cada uma das notas é pintada com frases que expressam questionamentos referentes à relação de valor entre o artista, o mercado de arte e a própria arte. Este trabalho, que também foi produzido no contexto da residência Pasa Causa, é reapresentado nesta exposição propondo uma nova circulação e uma nova ação/discussão sobre o valor da arte. 

As proposições ensinadas por Pajé convidam o público a experimentar camadas de possibilidades cujo aprendizado depende do momento, do desejo do outro, da dúvida. O que era, a princípio, pintura ocupa um campo ampliado do objeto, escultura, fotografia e/ou performance. A propedêutica das coisas é, então, dissolvida para a experiência estética de cada indivíduo com o desejo de re-aprender, sobrepor, re-significar tanto o fazer artístico como a História da Arte.

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