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A dúvida que persiste: relato de um debate [The question that remains: an account of a debate]

17/06/2014

[Read the english version bellow]

Texto ficcional escrito para o projeto ART BOOK produzido por Bruno Moreschi. ART BOOK é uma enciclopédia de artistas de conteúdo ficcional. O trabalho apresenta biografias, imagens de trabalhos e declarações de 50 artistas inventados. O conteúdo do livro, inclusive as 311 obras fotografadas, os textos e a diagramação, foi produzido pelo próprio Bruno Moreschi .

 

Em agosto de 2013, participei do debate ART BOOK: leituras, apropriações e conceitualizações na arte contemporânea, um evento de divulgação deste livro que você tem em mãos, no Node Center for Curatorial Studies, em Berlim. Entre os convidados também estavam Albert Minter e Sarah Linda Cooper, que refletiram sobre a complexidade da conceitualização da arte contemporânea, sobre o papel do curador e a produção de publicações no mesmo contexto temporal em que os artistas estão produzindo.

O crítico e historiador alemão, Albert Minter, apresentou uma leitura da enciclopédia ART BOOK com base nas reflexões publicadas em seu livro Arte do Século 21. Considerou as temáticas que caracterizam a produção de arte contemporânea, relacionando-as a artistas apresentados nesta enciclopédia. Entre elas, a dificuldade de estabelecer critérios de classificação temporal, de linguagens, ou de “ismos”, como no trabalho do pintor Edgar Kessler; a objetificação da performance nos autorretratos de Malala Ahmed; a reflexão sobre a catalogação nos trabalhos de Arthur Orthof e José dos Reis; as referências à documentação e ao processo por meio dos projetos irrealizáveis de Elliot Ford; a dissolução da autoria pela produção anônima de So and So; a ideia de que qualquer coisa pode tornar-se obra de arte nos ready-mades de Sarah Glade ou nos trabalhos “sobre o nada” das gêmeas Hamona & Hillary; entre outros exemplos.

Preferi relatar minha pesquisa de doutorado sobre os procedimentos curatoriais em exposições de arte contemporânea no Brasil. Observei que, mesmo que a produção artística contemporânea discuta a problemática do espaço, da autoria, da participação, do efêmero e do processo (conforme comentado por Albert), a maioria das exposições ainda apresenta um texto curatorial-explicativo (por vezes, descritivo; outras vezes, mais hermético) na sua entrada. A verdade é que, durante a minha pesquisa, encontrei pouquíssimas curadorias que procuraram desconstruir o modelo expositivo tradicional do “cubo branco” e/ou da “caixa preta” na última década em São Paulo, a cidade brasileira com o maior número de exposições artísticas.

Por fim, a curadora americana Sarah Linda Cooper apresentou sua experiência na publicação Creamier, uma outra espécie de enciclopédia em que 10 curadores de diferentes nacionalidades selecionam 100 artistas emergentes. Em seu relato discutiu a própria posição de ser júri, os critérios, muitas vezes subjetivos, de seleção e a responsabilidade de dar visibilidade aos artistas. Sarah terminou sua fala questionando “Quais são as diferenças entre as publicações enciclopédicas e as grandes exposições de arte contemporânea como as bienais?”.

A mesa terminou com questionamentos sobre os procedimentos dos curadores em relação à amplitude das linguagens da arte contemporânea. Aproveitando a pergunta de Sarah, minutos antes do fim do seminário, questionei o critério de escolhas dos artistas da enciclopédia ART BOOK. Afirmei que, até o momento, não conseguia entender por que a escolha desses artistas e não de outros. A situação gerou um nítido desconforto na plateia, em especial na primeira fileira do auditório, onde se localizava parte da equipe que produziu a ART BOOK. Não me importei e minha dúvida persiste. Agora, com a enciclopédia publicada, o leitor também pode emitir sua opinião.

art-book

 

The question that remains: an account of a debate

by Ananda Carvalho (*)

(Experimental and fictional Text written for the project ART BOOK by the artist Bruno Moreschi. ART BOOK is an encyclopedia of artists featuring exclusively fictional content. The work presents biographies, images of works, statements and resumes of 50 invented artists. All the content of the book, including the 311 photographed works and page layouts, was produced by Bruno Moreschi.)

In August 2013, I attended the ART BOOK debate: readings, appropriations and concepts in contemporary art, an event to advertise this book you have in your hands, held at the Node Center for Curatorial Studies, Berlin. Albert Minter and Sarah Linda Cooper, who were among the guests, reflected on the complexity of the concept of contemporary art, the role of the curator and the production of publications in the same temporal context in which the artists are producing.

German critic and historian Albert Minter, presented a reading of the ART BOOK Encyclopedia based on the published reflections of his book Art of the 21st Century. He considered the themes that characterize the production of contemporary art, relating them to the artists presented in this encyclopedia. Among them, the difficulty in establishing criteria for temporal classification, languages, or “theories”, such as in the work of the painter Edgar Kessler: the object of performance in the self portraits of Malala Ahmed; the reflection on the classification of the works of Arthur Orthof and José dos Reis, the references to the documentation and process by means of impossible projects of Elliot Ford; the dissolution of authorship by the anonymous production of So and So; the idea that anything can become a work of art in the ready-mades of Sarah Glade or the works about ‘nothing’ by the twins Hamona & Hillary, among other examples.

I preferred to account my doctorate research about the curatorial procedures in exhibitions of contemporary art in Brazil. I observed that even if the contemporary art production discusses the problematic concerning the space, the authorship, the participation, the ephemeral and the process – as mentioned by Albert – most of the exhibitions still present a curatorial explanation text (at times, descriptive; other times, hermetic) at the entrance. The truth is that, while researching, I came across very few curatorial notes that deconstructed the traditional exhibition model of the “white cube” and/or the “black box” in the last decade in São Paulo, the Brazilian city with the greatest number of art exhibits.

Last, the American curator Sarah Linda Cooper presented her experience at the Creamier, another type of encyclopedia in which 10 curators of different nationalities selected 100 emerging artists. She discussed her own position as a judge, the criteria for selection, often subjective, and the responsibility of giving visibility to the artists. Sarah ended her talk asking “What are the differences between the published encyclopedias and the great exhibits of contemporary art at the biennials?”

The panel ended with questions about the procedures of the curators in relation to the range of languages of contemporary art. Seizing the opportunity of her question, minutes before the end of the seminar, I questioned the criteria to choose the artists in the ART BOOK encyclopedia. I stated that, up to the moment, I could not understand the reason for the choice of these artists and not others. It caused a sharp discomfort in the audience, especially in the first row, where part of the team who produced the ART BOOK was seated. I did not mind and my question persists. Now, with the encyclopedia published, the reader may voice their opinion.

* Ananda Carvalho is an art critic, University professor, doctorate student and master in Communication and Semiotic from Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). She was a judge at the Temporada de Projetos 2013 at Paço das Artes, attended the residency Ateliê Aberto #5 at Casa Tomada and collaborated at the Canal Contemporâneo, all instutitions of São Paulo.

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