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Monumento invisível

29/02/2012

Texto crítico da obra Le Chant des Sirènes, de Cláudio Bueno, em cartaz na Mostra LABMIS 2011

Mergulhe,
Atenda a meus sinais
Mostre devoção.
À margem, águas e horizonte.
Ouça o último canto,
Ensejo de eternidade
Mergulhe.”

 

Quando aterrissar em Québec, procure no seu celular por aplicativos específicos dessa região. Você encontrará o monumento Le Chant des Sirènes (O Canto das Sereias), projeto desenvolvido por Claudio Bueno em uma residência artística em Québec, Canadá, viabilizada por La Chambre Blanche, Avatar, La Bande Vidéo e MIS-SP.

Deixe-se envolver pela beleza dos arredores. Caminhe até as margens do Rio Saint Laurent, no Vieux-Port de Quebéc. Uma triste e sedutora canção preenche a paisagem. São vozes de sereias imortalizadas por uma performance de oito cantoras do Conservatório de Québec. Uma homenagem a oito mulheres que trabalhavam com rádio comunicação na Primeira e na Segunda Guerra Mundial e morreram no mar. Agora elas cantam para seus amantes, filhos, clientes, maridos, para aqueles que foram para a guerra e não voltaram, e, também, para aqueles que acabaram de chegar.

Assim como em outros de seus trabalhos (Redes Vestíveis, Campo Minado, Estrelas Cadentes e The Lovers), o artista instiga as pessoas a vivenciarem um cruzamento simultâneo entre corpo, espaço e informação. Mas, neste caso, a experiência da obra só acontece na sobreposição de duas camadas: estar lá naquela paisagem escolhida minuciosamente (ao mesmo tempo que se percebem informações históricas, observam-se modernos navios chegando) e ativar o aplicativo construído a partir de ferramentas de geolocalização para celular. Um encontro possível no emaranhado fluxo das redes.

Cláudio Bueno também tensiona a pressuposta relação de imaterialidade com mobilidade. A princípio, é um som que poderia ser ouvido em qualquer lugar. Mas ele é produzido para um local específico. Ou seja, a presença do corpo do visitante e o conhecimento do trabalho é uma demanda para a experiência. A descoberta do monumento Le Chant des Sirènes acontece através de cartões postais, anúncios publicados em revistas e entrevistas que Claudio Bueno concedeu para um jornal local e para programas de rádio.”

Le Chant des Sirènes é um monumento imaterial e invisível. Está na frente do museu naval que destaca o marinheiro. Nesta instituição, apenas o lado masculino é arquivado. Claudio Bueno, ao mergulhar em Québec, apresenta um fato que não é muito conhecido. O artista-turista “hackeia” a história da cidade ao evidenciar mulheres que foram esquecidas. Ao mesmo tempo, desenvolve uma valorização perversa, pois as sereias chamam os homens para morrer.

Desse modo, o artista questiona o conceito de monumento. Relembra o que já dizia o historiador francês Jacques Le Goff (2003, p. 525)”’: “o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores”.

Claudio Bueno convida o público a entrar em contato com essas forças sociais, culturais e políticas que constroem a história.

Escute!

Mergulhe!

Encante-se…
____________
‘ Letra da música cantada pelas sereias. Criação de João Marcelo Simões e Silas Correa Leite. Tradução para o francês por Fernanda Cotrim.
Versão original em francês: Plongez, / Suivez me signes / Montrez votre dévotion / Au bord; l’eau et l’horizon. / Écoutez le dernier chant, / L’occasion d’eternité / Plongez.
” Veja as matérias em http://buenozdiaz.net/sirenssong.html
”’ LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.

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