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Ana Paula Lobo

23/10/2009

Texto para o catálogo da Exposição Tripé 2008 (SESC Pompéia, 2008)

As duas videoperformances de Ana Paula Lobo expostas no projeto Tripé foram seus primeiros trabalhos em vídeo. As obras Sem Título e Desproteção constituem uma experimentação e deram origem a uma pesquisa em que o vídeo se mistura com formatos em que a artista já atuava, como a pintura e a instalação.

Essas videoperformances remetem às pioneiras do vídeo no Brasil dos anos 70: Letícia Parente, Ana Bella Geiger e Sônia Andrade. Naquela época, a experiência resumia-se na relação entre o corpo da artista e a câmera. Entretanto, esse corpo simbolizava mais que um indivíduo, era uma presença política na época de ditadura militar. Naquele tempo, existiam poucos equipamentos disponíveis no país.

Na contemporaneidade, em que o vídeo doméstico proporcionou plataformas cada vez mais acessíveis para a auto-expressão, Ana reatuliza a situação entre corpo e vídeo. Para experimentar essa mídia, coloca–se em primeiro plano e revela uma metáfora da vida urbana claustrofóbica e caótica. Um corpo e um eu transmidiático e híbrido, que muito se difere do representado pelas pioneiras da videoarte no Brasil.

Em Sem Título, a artista percorre continuamente escadas e corredores que evidenciam um labirinto. Explora diversos enquadramentos de câmera e a intensidade da luz ambiente, que acende de acordo com um sensor de presença. Essa obra também remete ao Nu descendo uma escada de Marcel Duchamp. Ana sempre procura trazer um elemento da pintura para o vídeo. A pintura cubista, em que Duchamp criticava a imagem retiniana, torna-se aqui referência para refletir o movimento possibilitado pela linguagem videográfica.

Em Desproteção, a artista cobre partes do seu corpo com um material sintético. Mas, essa não foi a ação filmada, e sim, o seu contrário. As imagens foram editadas em reverso. Essa opção é uma apropriação da técnica para construir o significado estético de tirar a pele. O trocadilho com a ordem do tempo aparece no título do trabalho. As imagens também foram passadas para preto e branco formando uma outra pele, monocromática. Assim, Ana cria novas peles de cola e sem cores questionando a multiplicidade do eu contemporâneo.

No Projeto Tripé, os vídeos foram projetados ocupando quase toda a parede, quase em tamanho de uma pessoa real. Desse modo, o formato de exibição, assim como as opções de captação e edição, colocam em conflito a subjetividade atual. Por outro lado, a beleza da granulação de Sem Título e a opção pelas imagens em preto e branco de Desproteção acentuam o caráter estético tornando o vídeo, poesia.

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