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Texto Expandido na exposição “Sinapses”, GAP-UFES

02/06/2018

A exposição “Sinapses: o Pensamento do Artista” apresentou os processos de criação dos artistas dos grupos de pesquisa Imaginatur (USP) e 3P – Práticas e Processos da Performance (UFES) na Galeria de Arte e Pesquisa – GAP-UFES.

Como participante do grupo 3P, fui convidada a participar desta exposição, articulando os processos de criação críticos e curatoriais de alguns projetos que já realizei. Escolhi expor folders e catálogos de exposições em que trabalhei, fazendo um recorte para projetos que concentravam-se na discussão de processos de criação. A seleção também foi pautada com o objetivo de englobar diferentes situações de trabalho (projetos contemplados por editais, experimentais, sem orçamento, em instituições públicas e em galerias comerciais), assim como diversas linguagens artísticas.

Para cada projeto apresentado, foi destacado um trecho de texto, que foi expandido ao ser montado em pequenas caixas. Os textos expandidos (como se fossem trechos grifados) emergiam no espaço como um diagrama que apresentava um panorama do processo de criação em crítica e curadoria.

 





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Entrevista com João GG, artista selecionado para a Temporada de Projetos do Paço das Artes

02/06/2018

Entrevista realizada a partir do acompanhamento crítico de João GG para a Temporada de Projetos do Paço das Artes

João GG Oi, Ananda! Você chegou a ler o “MAGMA¹”? O que achou?

 

Ananda Carvalho Oi, João! Eu já li o “MAGMA” sim e achei bem interessante como nossas referências e imaginários vão sendo ativadas e ganhando materialidades ao ler o texto conjugado com as imagens. Para mim, o que chama mais atenção são as possibilidades de aproximação entre elementos mais “naturais”, como a pedra, com o plástico. Essa aproximação me faz pensar sobre a perenidade das coisas sob a perspectiva das ideias de totem, monumento e ritual.

 

JGG Eu fiquei pensando essa semana sobre coisas que poderia ter comentado contigo, como a escolha dos materiais. Na época do “MAGMA”, acho que teve um fio condutor de usar os mais variados tipos de materiais sintéticos. Interessava-me como esses materiais envelheceriam, ou seja, observar sua duração, que poderia ser de alguns meses ou ser quase eterna, dependendo de densidade, dureza etc. Depois do “MAGMA”, comecei a trabalhar com isopor mais persistentemente. O isopor tem uma ambiguidade interessante: ao mesmo tempo que é percebido como frágil e efêmero, é um dos materiais mais perenes já inventados. Essa característica permitiu aproximações com a ideia de materiais clássicos da escultura como mármores, cerâmica e metais, que são empregados com o intuito de resistir ao tempo ou sobreviver à história. Ainda podemos pensar essas questões na pintura, que na contemporaneidade é em boa parte feita com tinta acrílica, um polímero, ou seja, um material não muito diferente daqueles que eu uso.

 

AC Eu vejo muito a questão da cenografia, o ambiente fictício e espetacular nos seus trabalhos. Mas fico pensando sobre a ideia de “Aparato”, que é o título da exposição. Você utiliza a palavra no singular. Mas a exposição consiste numa composição de diversos aparatos. Quer me contar um pouco sobre o seu processo de criaçãodo título?

 

JGG Eu prefiro títulos “objetivos” e sintéticos a títulos excessivamente poéticos ou metafóricos. E é difícil dar títulos objetivos para esses trabalhos, pois eles costumam ser coisas híbridas. O que eu tenho feito recentemente é derivar o título da primeira referência imagética do trabalho. Geralmente, é uma paisagem. Também gosto que seja uma paisagem genérica (canyon, montanha, cascata etc.). Mas não é regra. No caso do título da exposição, “Aparato” também foi um título objetivo. Esse conjunto de trabalhos tem em comum a estrutura cênica, uma inclinação a enfatizar a “aparelhagem” em torno das esculturas (luzes, fundos, pisos, motores). Em algum momento das montagens de exposição eu realmente comecei a me sentir um cenógrafo ou iluminador, carregando todas essas lâmpadas de um lugar pro outro. Esse ajuste fino de montagem passou a ser tão importante quanto a criação dos objetos.

 

AC Essa questão da cenografia também pode ser relacionada com a emulação da paisagem: tanto com a “objetificação” da paisagem quanto à questão da pintura que vira escultura². Também se relaciona com aquilo que você falou sobre outras discussões recorrentes no seu trabalho: a cultura da imagem e a produção em massa.

 

JGG No fim do ano passado eu descobri um artista chamado Jordan Wolfson³ que me chamou muita atenção. (…) Para mim, o mais interessante é este artista utilizar robôs parecidos com humanos, mas ainda assim assumidamente não humanos. É sobre o “uncanny valley”, o estranhamento que nós sentimos perante isso, esses limites da empatia e auto-reconhecimento. No meu trabalho, acho que interessa mais a ideia de dar “vida” a algo que seria estático. Ou melhor, dar um movimento outro a uma determinada coisa, um movimento que tipicamente não lhe pertence, e ver como fica o resultado (por exemplo, fazer uma montanha girar). Eu acho que nessa exposição também se ensaia algo sobre tempo e ritmo. O ponteiro do “Coreógrafo” de certa forma “dita” um ritmo para o resto da sala. É como se ele estivesse numa situação de autoridade, centralizado ao fundo da sala, e numa estatura dominante. Já “Paramount” apresenta um movimento circular constante, que permite que a escultura se exiba para o observador. Em “Outono/Inverno”, o movimento não é observável, mas há um cronograma de troca da escultura exposta no pedestal, que muda uma vez por semana. De qualquer forma, são todos movimentos mecânicos, sem sensualidade, “administrados”.

 

AC Essas reflexões que a exposição faz sobre “tempo, ritmo e movimento” nos faz voltar a pensar sobre a escolha dos materiais nos seus trabalhos. Lembro daquilo que você fala sobre o plástico ser um material “meme” – estar em todos os lugares – e sobre o conceito de “imortalidade biológica”. Se ampliarmos esses questionamentos para um contexto socioeconômico mais amplo, volta aquela inquietação, que falamos algumas vezes, sobre qual é a concepção de política ativada por meio dos seus trabalhos.

 

JGG Eu prefiro não ser ilustrativo de clichês políticos. Prefiro dessa forma por uma série de motivos. O lugar da arte (que geralmente é um contexto de privilégio) num país como o Brasil (cheio de contradições e tensões socioeconômicas, raciais, de gênero etc.) é extremamente delicado. Eu acho um tanto paradoxal um circuito fechado e ensimesmado como o da arte ficar tematizando problemas tão tentaculares como esses, que geralmente têm impactos mais violentos fora que dentro do circuito. Na verdade, os problemas dessa ordem têm uma urgência outra. São questões que deveriam ser endereçadas por políticas públicas, ou, então, por agentes que têm muito mais impacto e recursos que o circuito das artes plásticas. Eu tenho preferido fazer objetos que se põe no mundo quase “factualmente”, sem tentar convencer o observador de um sentido, propósito ou moral. Não é que da arte não resultem efeitos e desdobramentos morais, mas eu acho que eles geralmente são uma resposta imprevisível a ela, e ela é, bem, só uma imagem, um objeto, uma condensação de realidade de época.Acho que é isso… Desculpe despejar tudo isso assim meio em fluxo de consciência – se preferir nem levar em conta nas perguntas, tudo bem – só quis te atualizar do que eu venho pensando esses dias.

 

AC Adorei receber esses fluxos de pensamentos… continuamos conversando…

 

JGG Por último, tem outra questão que pra mim é sensível. Eu acho que a justaposição de isopor com a ideia de efemeridade (que nem é tão aplicável assim, já que eu estou guardando essas coisas) e com as cores estridentes leva as pessoas a relacionarem o meu trabalho com o carnaval. Mas esses três elementos estão em vários outros lugares: vitrines de shopping, decoração de parques de diversão, ornamentos de fachada de prédios, bens de consumo. Tudo no mundo depois da década de 1950 tende a ser de plástico. Também tende a ter coloração ácida ou chapada, tanto por influência da Pop Art, como das possibilidades técnicas de impressão que tomaram conta dos processos industriais. Meu ponto é que todos esses elementos são mais genéricos que o carnaval. Os insumos que eu uso vêm quase todos dessas regiões comerciais atacadistas tipo 25 de março, Santa Ifigênia e Brás. E o que elas têm em comum não é o carnaval, mas a China, a economia do petróleo, a produção em massa e um tipo de consumo que atinge todos os lugares e públicos.

 

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1 Trabalho de Conclusão de Curso em Artes Visuais realizado pelo artista na ECA-USP (2017).
2 No início de sua carreira como artista, João GG realizava pinturas.
3 Ver referências citadas pelo artista aqui: “Jordan Wolfson: Coloredsculpture”: <https://www.youtube.com/watch?v=gsla5fbzhpw&gt;
e “Female Figure”: <https://www.youtube.com/watch?v=BGFNWJ16LT4&gt;.

Instauração

15/09/2017

Mostra de performances no Sesc Belenzinho apresenta a diversidade desta linguagem e reflexões sobre o contexto atual

 Com curadoria de Ananda Carvalho, a mostra Instauração apresenta um panorama diverso da performance: ações artísticas que utilizam o(s) corpo(s) como ferramenta, relacionando-o(s) aos modos de vivenciar o espaço e às possibilidades de trocas com o público. Considerando que a performance não possui definições fechadas e é uma manifestação artística complexa, o Sesc Belenzinho promove apresentações gratuitas com o intuito de aproximar o público desta linguagem e também provocar reflexões sobre questões sociais e políticas atuais.

O título do projeto Instauração faz referência ao artista Tunga (que utilizou o termo para pensar o seu próprio trabalho com o desejo de somar o que a “performance” e a “instalação” não davam mais conta em suas compreensões isoladas). Essa referência é ativada justamente para evidenciar a amplitude do campo da performance nas Artes Visuais e também tem o desejo de pensar as possibilidades de desconstrução do que já foi institucionalizado ou consolidado como performance na História da Arte. Por esse viés, considera também o próprio significado de “instauração” encontrado no dicionário que consiste em “processo ou resultado de criar algo”, procurando fomentar o acesso a performance como manifestação artística para todos os públicos. E, em tempos tão complexos, o projeto Instauração  procura relembrar que os nossos corpos são a última instância de resistência e liberdade, apresentando ações que acontecem nos espaços de fluxo e de convivência do Sesc.

 

Programação novembro

Alguém Está Vociferando Desde Ontem com Tom, Pombo e Pontogor
11 de novembro, 13h às 16h

Performance que manipula gravadores para produzir sons. Sons do passado e do presente, gravações das próprias vozes e de vozes de outrem. A ideia é trabalhar tanto com vozes alheias (como aulas de línguas, discursos políticos, canções de ópera, exercício de hipnose) quanto com a própria voz, que irrompem em fluxos de textos não planejados, diálogos, palavras soltas e sons não verbais.

Tom é artista e seu trabalho se desenrola na zona fronteiriça entre diferentes linguagens artísticas. Borrando a fronteira entre performance, vídeo, som e literatura, investiga as zonas de atrito entre corpo e linguagem, biologia e cultura, voz e identidade. Tem certa obsessão por situações que provocam aporias linguística, como o ventriloquismo, a parapsicologia e a possessão.

 

Negativo com Dora Smék e Paul Setúbal
15 de novembro, 10h às 20h

Nesta ação inédita, os artistas reproduzem uma espécie de ateliê em que realizam procedimentos escultóricos de modelagem anatômica dos seus próprios corpos. Ao longo do dia, a ação gera uma série de negativos do volume do corpo, que serão instalados no espaço do Sesc. A moldeira, ou forma, é o negativo do volume do corpo, ou seja, a marca de sua ausência.

Dora Smék é Mestranda em Artes Visuais pela Unicamp e graduada Artes do Corpo pela PUC- São Paulo. Sua produção atual se expande para performances, instalações, objetos, vídeos, áudios e fotografias, sempre abordando questões referentes aos moldes do corpo. Em 2017 apresentou Transbordação na Galeria Vermelho em São Paulo, em 2016 no Sesc Bom Retiro e em 2015 no Sesc Campinas–SP. Participou de exposições em São Paulo-SP, Florianópolis-SC e Brasília-DF ao longo do ano de 2017. Atuou no Teat(r)o Oficina (2011-2012) e no Batucada (Demolition Inc.), em São Paulo-SP, Teresina-PI, Bruxelas e Frankfurt (2014-2015).

Paul Setúbal é Licenciado em Artes Visuais, mestre e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG, atua no campo das culturas das imagens e processos de mediação. É integrante do Grupo EmpreZa. Sua pesquisa se desenvolve por meio de múltiplas linguagens, como pintura, desenho, objeto, vídeo, fotografia, instalações e performances. Sua produção tem como eixo as problemáticas do corpo na sociedade contemporânea, seu uso, controle, relações de abuso e poder. Seu próprio corpo é explorado como suporte geográfico e território de conflitos. Utiliza-se de materiais diversos para a produção das obras como seu sangue, lona crua, fogo e ferro.

 

Passado a Limpo com Grasiele Sousa – A.K.A. Grasiele Cabelódroma
25 de novembro, 14 às 16h

Nesta performance inédita, o público será convidado à colaborar na criação de um “inventário” de ocupações realizadas por mulheres de seu convívio. Seguindo a lógica da construção de um banco de dados (nome, idade, atividade), a artista e participantes irão registrar as informações sobre uma extensa peça de tecido, utilizando um lápis/giz de costura cuja principal característica é poder ser apagado tão logo se passe o ferro sobre ele.

Grasiele Cabelódroma é dançarina e performer. Mestra em psicologia clínica pelo Núcleo de Estudos da Subjetividade Contemporânea da PUC/SP e graduada em educação artística pelo Instituto de Artes da Unesp (2003). Pesquisa ações corporais, em particular para o cabelo, autobiografia e reperformance. É membro fundadora da extinta associação Brasil Performance BrP desde (2010-2015). Desenvolve os projetos Cabelódromo e Cia. Subdesenvolvida de Dança. Já apresentou suas performances no Brasil e no exterior.

+ Bate-papo com os artistas Tom, Dora Smék, Paul Setúbal, Grasiele Cabelódroma. Mediação: Ananda Carvalho
25 de novembro, 17h às 19h

 

Programação outubro

 

Projeto Invisível por Renan Marcondes
21 de outubro, 11h às 17h, na área de convivência.

Esta ação engloba duas performers silenciosas – Tetembua Dandara e Carolina Callegaro – que trajam estranhos óculos de madeira com objetos no lugar das lentes. Caso alguém do público tente conversar com alguma das performers, apenas receberá um pequeno papel com um conteúdo secreto. A performance reflete sobre a função dos objetos nas relações de visibilidade e afeto humanas. Esse trabalho pensa o óculos como aparato de segurança em relação ao olhar do outro ao mesmo tempo em que é elemento de destaque e interesse, repelindo e atraindo os corpos.

Renan Marcondes é artista visual, performer e pesquisador, representado pela Adelina Galeria (SP/Brasil), Doutorando em Artes Cênicas pela ECA-USP, Mestre em Poéticas Visuais pela UNICAMP. Seu trabalho alia procedimentos de repetição coreográfica, literatura e objetos escultóricos que alteram a movimentação do corpo, impedem gestos e representam condições bizarras e patéticas da existência do homem, criando futuros hipotéticos nos quais o ser humano não mais se compreende como centro do mundo.

 

Incubadora com Leandra Espírito Santo
21 e 22 de outubro, 17h às 19h, na área de convivência.

Nesta performance/instalação, a artista cria o ambiente de uma fábrica de objetos inúteis e inusitados: balões de látex preenchidos com bolinhas de isopor. Durante a performance, a artista realiza as tarefas de acionar repetidamente essas máquinas, num esquema de produção que nos remete à produção fordista dos tempos modernos. Ao fazer o corpo se movimentar, essas máquinas recuperam uma relação analógica e orgânica com a produção e seus meios. A performance reflete sobre os modos de trabalho – considerando a relação entre a arte, o artesanal, o científico e o industrial – e seus impactos no corpo e no comportamento humano.

 Leandra Espírito Santo é artista visual, doutoranda e mestre em Artes Visuais pela ECA-USP. Seu trabalho transcorre por diversas mídias como performance, instalação, fotografia, vídeo, escultura/objeto, intervenção urbana. Através de uma linguagem lúdica e irônica, a artista se propõe a trazer reflexões sobre nossos procedimentos, dos mais cotidianos e comuns aos mais complexos. 

+ Bate-papo com a curadora Ananda Carvalho e os artistas Leandra Espírito Santo e Renan Marcondes
11 de novembro, 11h às 13h

 

Programação setembro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bagagem, Não à Guerra do Congo e A Natureza com Shambuyi Wetu e convidados
02 de setembro, 17 às 19h

Para apresentar as 3 ações, Shambuyi desenvolveu vestimentas que procuram ativar reflexões sobre as migrações, as situações dos refugiados, as guerras no Congo e a relação entre natureza e cultura. Como “criaturas”, o performer e 2 artistas convidados caminharam pelo Sesc conversando com o público que os seguia em busca de fotos e conversas.

Shambuyi Wetu é artista congolês, vive em São Paulo desde 2014. É refugiado. Estudou artes na Academia de Beaux-Arts, em Kinshasa (Congo), onde fazia pinturas e esculturas. Desde que chegou ao Brasil, trabalhou na construção civil, mas a necessidade de se expressar por meio de sua arte continua e vem realizando performances em alguns eventos na cidade de São Paulo.

 

O que você tem a dizer?  com Carla Borba
16 de setembro, 19h às 21h, na área de convivência

A ação proposta por Carla Borba foi elaborada com o objetivo de suscitar uma reflexão a respeito dos abusos sofridos por mulheres na fase da infância e\ou adolescência. Enquanto a artista escreve com pirógrafo sobre papel japonês, ela faz a leitura em voz alta de diversos relatos de assédio que tomaram conta das redes sociais, principalmente em 2015, devido a campanha “Primeiro Assédio”. Durante toda a ação a expressão “O que você tem a dizer?” é repetida. Segundo a artista, “a escrita com fogo remete à ideia de que os relatos tanto queimam e ardem a memória da vítima quanto de quem participa da performance”.

Carla Borba é artista visual, doutoranda pelo PPGAV/UFRGS, bolsista CAPES; Mestre em Poéticas Visuais (2012) e bacharel em Artes Plásticas (2003) na mesma instituição. Sua pesquisa envolve as relaçõess entre performance, imagem, processos colaborativos e questões de gênero.

 

Vestindo Hiatos com Alexandre D’Angeli
30 de setembro e 01 de outubro, 13h às 19h, na área de convivência

Alexandre D’Angeli apresenta uma performance de longa duração inédita. De acordo com o artista, “Vestindo Hiatos propõe pensar acerca dos fenômenos de vacância e especulação imobiliária, e sua relação com os processos de ocupação organizada e de gentrificação”. A partir de uma pesquisa de 5 meses em diversas ocupações da Frente Livre por Moradia (FLM), o artista propõe uma ação em que doze camisas brancas previamente bordadas com pontos soltos podem ter suas tramas desfeitas pela audiência ao longo da ação. Vestidas uma a uma ao longo de cada hora, as peças bordadas apresentam plantas arquitetônicas de edificações ocupadas ou que estão em perímetro de especulação imobiliária.

Alexandre D’Angeli  é performer e ator com graduação em Artes Cênicas. Especializou-se em Mímica Corporal Dramática e Acrobacia Teatral pela École International de Mime Corporel Gestuel Dramatique de Paris. Interessa-se especialmente pelas linguagens mais diretamente relacionadas ao corpo, e que operam no cruzamento entre a performance e o teatro.

+ Bate-papo com a curadora Ananda Carvalho e os artistas Shambuyi Wetu, Carla Borba e Alexandre D’Angeli:
07 de outubro, 11h.

O projeto continua em outubro e novembro em diversas datas e horários. Para saber mais, acompanhe a programação no site http://www.sescsp.org.br.

 

Serviço:

 

Local: Sesc Belenzinho

Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho

Todas as atividades são gratuitas.

HISTÓRIA DA _RTE

30/08/2017

O projeto A HISTÓRIA DA _RTE apresenta dados quantitativos e qualitativos de todos os 2.443 artistas encontrados em 11 livros utilizados em cursos de graduação de artes visuais no Brasil. A intenção é mensurar o cenário excludente da História da Arte oficial estudada no país a partir do levantamento e do cruzamento de informações básicas das/dos artistas encontradas/encontrados. Com isso, espera-se que as interessadas e os interessados no tema tenham um material de apoio para construir outras leituras para a História ou mesmo uma transformação radical do campo.

O projeto nasceu quando um de seus integrantes, o artista Bruno Moreschi, começou a ministrar uma disciplina de História da Arte na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A bibliografia prevista para o curso não abordava as produções realizadas por mulheres (negras ou não), negros e artistas nascidos na América Latina. Que História é essa que aprendemos e estamos ensinando aos alunos?

Objetivando quantificar os aspectos já consolidados na narrativa da História da Arte, Bruno e os pesquisadores Amália dos Santos e Gabriel Pereira iniciaram A HISTÓRIA DA _RTE, projeto premiado pelo programa Rumos Itaú Cultural (2015-2016) e com produção geral de Marcela Amaral, Mônica Novaes Esmanhotto e Laura Maringoni.

A pesquisa teve início com a listagem, em formato de tabelas, de todos os artistas de 11 livros de História da Arte e as seguintes informações: anos de nascimento e morte; onde nasceu, trabalhou e morreu; gênero e raça; técnica principal utilizada. A partir da análise desses dados, observou-se que

de um total de 2.443 artistas, apenas 215 (8,8%) são mulheres, 22 (0,9%) são negras/negros e 645 (26,3%) são não europeus. Dos 645 não europeus, apenas 246 são não estadunidenses. Em relação às técnicas utilizadas, 1.566 são pintores.

Os dados das tabelas foram a base para a produção de um material de apoio impresso em formato de panfleto, semelhante àqueles encontrados na entrada de museus e centros culturais. Desenvolvido pelo designer Guilherme Falcão, ele apresenta textos, gráficos e mapas que mostram os principais dados encontrados.

Com tiragem de 13 mil exemplares em português e 2 mil em inglês, o material será distribuído gratuitamente ao longo de 2017 na entrada de museus do Brasil e de outros países selecionados pela equipe. Esta ação de distribuição problematiza o papel das instituições culturais que são, assim como os livros pesquisados, responsáveis pelo cenário restrito da História da Arte. O que diretores/diretoras e curadores/curadoras dos museus têm a dizer sobre o cenário aqui apresentado? Que ações concretas estão sendo tomadas para que os acervos que coordenam deixem de ignorar as produções artísticas de mulheres, negras, negros, indígenas e não europeus, por exemplo?

Todos os textos do panfleto e deste site tiveram acompanhamento crítico da curadora Ananda Carvalho. O projeto também contou com um conselho formado pelas professoras Caroline Cotta de Mello Freitas, Claudia Mattos Avolese e Vera Lúcia Benedito.

Diferente da História normativa que queremos problematizar, não consideramos que nossa pesquisa seja um discurso detentor de uma verdade absoluta, tampouco algo finalizado. A equipe do projeto está aberta para possíveis (e bem vindas) contestações e tem interesse de publicar aqui eventuais sugestões e críticas.

A HISTÓRIA DA _RTE é um projeto que tem influência das novas leituras para a História da Arte – como as de Arthur Danto, Hans Belting, Didi-Huberman, estudos pós-coloniais etc. publicadas desde os anos 1980 e que vêm ganhando espaço nas universidades brasileiras nas ultimas décadas. Considerando que essas discussões se restringem a poucos grupos, em geral no âmbito acadêmico de cursos de pós-graduação, este projeto procura oferecer dados para que elas também ocorram em públicos mais amplos.

Boa visita!

EXPEDIENTE Concepção: Amália dos Santos, Bruno Moreschi e Gabriel Pereira.
Coordenação geral: Bruno Moreschi.
Produção executiva: bólide | ações pró-cultura – Marcela Amaral, Mônica Novaes Esmanhotto e Laura Maringoni.
Pesquisa e tabulação dos artistas: Gabriel Pereira.
Textos: Ananda Carvalho.
Design gráfico e edição: Guilherme Falcão.
Conversão de dados em cartografia: Pedro Vada, Guilherme Falcão e Amália dos Santos.
Pesquisa de instituições para distribuição: Anna Carolina Gorski Boresztein.
Site: Bruno Moreschi e Guilherme Falcão.
Conselho editorial: Caroline Cotta de Mello Freitas, Claudia Mattos Avolese e Vera Lúcia Benedito.

Agradecimentos: Aarhus Universitet, Instituto de Artes da Unicamp, Alodie Larson, Armando Maduro, Caio Paraguassu, Eduardo Costa, Fernanda Pessoa, Fernanda Pitta, Giselle Beiguelman, Goethe Institut São Paulo, Iara Schiavinatto, Jaime Lauriano, Juliana Biscalquin, Leonardo Foletto, Mariana Nacif Mendes, Mayra Koketsu, Nathalia Lavigne, Sylvia Furegatti, Paula Alzugaray, Thays Viana Ishikawa.


O conteúdo integral da pesquisa é de domínio público, sem nenhum tipo de restrição para copiar, distribuir, exibir e executar outros projetos derivados dele.

Este projeto é apoiado e selecionado pelo Rumos Itaú Cultural 2015-2016. Apoio Goethe Institut.

Fig. 1 e Fig. 1 espelhada alternadas

16/08/2017

Texto curatorial da exposição individual de Cristina Suzuki na Adelina Galeria

Cristina Suzuki - da série Imprinting - Simulações Edição 01 - Fazenda Serrinha

 

Os trabalhos desta exposição individual de Cristina Suzuki partem da série Imprinting, desenvolvida desde 2013, e que teve início com esboços desenhados em pequenos cadernos. Entre as diversas formas possíveis, a artista deteve-se em uma, que denominou Fig. 1 (abreviatura de Figura 1) e que se tornou o elemento base para inúmeras combinações. Os títulos das obras dessa série, assim como o desta exposição, são a descrição de seu processo de criação e enfatizam a execução metódica e o movimento que a artista imprime na forma. É por meio desses procedimentos que Cristina compõe diferentes desenhos partindo sempre de um mesmo elemento.

Um procedimento recorrente no processo de criação de Cristina é a não delimitação das mídias e a constante intersecção entre elas. Após os desenhos feitos à mão, Fig. 1 foi redesenhada digitalmente, virou carimbo de tamanhos diversos, foi espelhada e alternada, e carimbou diferentes locais. Centros culturais, espaços alternativos e outras instituições tiveram suas paredes ocupadas por essa operação de multiplicação. Quando suas composições saíram do papel para ativar o espaço físico, tornou-se necessário desenvolver simulações digitais1 para visualizar como a ação de carimbar seria realizada. O vídeo Figura 1 virada -90 graus sobreposta à figura 1 espelhada, alinhada à esquerda e no topo, esta sequência virada 90 graus e deslocada 100% na horizontal e estas sequências viradas 180 graus deslocadas 100% na vertical consiste em uma animação dessa simulação, reproduzindo virtualmente o gesto de carimbar as paredes da Adelina Galeria.

Outro desdobramento desse trabalho pode ser visto em Imprinting – Simulações Portáteis, edições de posts feitos na rede social Instagram2 com imagens de simulações digitais de instalações em galerias, museus e outros espaços culturais que possuem alguma espécie de edital de seleção3. Assim como o celular, que pode ser consultado a qualquer momento, Imprinting – Simulações Portáteis emerge como uma exposição “de bolso”, em permanente circulação, para ser acessada quando for desejada.

A exposição Fig. 1 e Fig. 1 espelhada alternadas procura refletir sobre os processos de reprodutibilidade na arte e suas possibilidades de pulverizá-la. É na repetição do gesto criador de sistemas que as proposições de Cristina acontecem. A exposição não se detém na materialidade (em que as paredes são pintadas com tinta) ou na veridicidade dos fatos (se os trabalhos publicados no Instagram realmente aconteceram); ela busca colocar em evidência o gesto artístico para propor discussões que vão além de questões formais e estéticas.

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[1][preâmbulo no. 1] O circuito da arte contemporânea demanda uma contínua apresentação de projetos por meio de editais, nos quais se espera que o artista apresente uma proposição já consolidada e adequada ao espaço expositivo. Ou seja, espera-se que o artista envie uma maquete digital, além de textos que expliquem objetivamente e conceitualmente o que pretende exibir.

2[preâmbulo no. 2] Observamos não só no circuito da arte, mas na sociedade contemporânea como um todo, uma necessidade de o indivíduo visualizar-se ou publicar-se imediatamente nas redes sociais para ser reconhecido pelo outro e para que passe a integrar o fluxo de informações nas redes. O celular, a presença massiva das câmeras digitais e a internet móvel reconfiguram o olhar para que o registro e a distribuição da vivência sejam o ponto de partida para as experiências.

3[preâmbulo no. 3] Apesar do circuito artístico contemporâneo brasileiro ter crescido consideravelmente desde o início dos anos 2000, as instituições não dão conta de exibir a produção de todos os artistas. Para citar apenas um exemplo, o edital do Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo (um dos mais conceituados do país) recebeu, em 2017, 531 inscritos na categoria exposições individuais para selecionar apenas doze artistas. Esses números significam que nem sempre um projeto deixa de ser selecionado por não ser bom. Em conversas com outros colegas participantes de júri de seleção, constatamos que pelo menos 10% dos projetos inscritos, ou seja, aproximadamente 50 são muito bons. Portanto, considerando esse exemplo do CCSP, surge a questão: o que fazer com os mais de 38 projetos classificados como muito bons, mas que ficaram de lado, pois apenas nove poderiam ser selecionados?

Movimento nº 02: sobre deslocamentos

08/08/2017

Texto crítico para a exposição Movimento no. 2 de Erika Malzoni no Museu Alfredo Andersen (Curitiba)

desconhecido

 

A ideia de deslocamento, em geral, pressupõe a palavra movimento: ir para um local diferente, mudar algo de lugar. Entretanto, Erika Malzoni nos chama a atenção para a possibilidade de deslocamento da percepção do que está sempre lá ao nosso entorno. Em suas perambulações cotidianas, a artista se detém no que, inicialmente, não teria mais uso, no que poderia ser descartado. Ela deixa-se encantar pelo ordinário, por aquilo que para outras pessoas parece até invisível em meio aos excessos da sociedade contemporânea.

Em seus trabalhos, Erika “redesloca” a si mesma, os objetos e o público que visita sua exposição. Aqui as esculturas podem ser uma espinha dorsal de gravatas que como um tentáculo invade o ambiente e ativa um movimento no espaço. Aqui as pinturas não são de óleo sobre tela, mas texturas pictóricas que emergem na sobreposição de sacolas plásticas ou na colagem de terra e areia – provenientes de diferentes lugares que a artista visitou.

Erika faz uso de dois procedimentos chaves da arte contemporânea: a apropriação e a inclusão do gesto artístico no cotidiano. São problematizações que refletem sobre os modos de ver os objetos para além dos seus usos pré-conhecidos. Suas obras consistem em estruturas organizacionais que conjugam a variação do valor econômico com o valor sentimental.

Em meio a estas práticas que, aparentemente, são derivadas de percursos aleatórios da vida cotidiana, a artista constrói coleções de combinações. Elabora possibilidades de pensar a paisagem como um desvio. E, nas encruzilhadas dessas suas perambulações, por fim, um Beijo de língua (o avesso do avesso), que procura nos lembrar das potencialidades dos encontros de um eterno deslocar-se.

 

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As vozes das Marias

25/07/2017

Texto realizado a partir do acompanhamento crítico de Vanessa Rodrigues na Residência LABMIS 2016.

 

Desde 2014, a fotógrafa Vanessa Rodrigues convive com as Marias, visitando seus cotidianos, suas histórias, seus sonhos. Tais Marias são 13 mulheres com mais de 60 anos que vivem em cortiços localizados em antigos casarões no centro da cidade de Santos. Mas também poderiam ser muitas outras. Atrás daquelas portas e janelas de residências construídas durante o ciclo áureo do café no final do século XIX e começo do século XX, há vozes com quem poucos conversam.

As trocas afetivas entre Vanessa e as Marias foram registradas em fotografias. No final de 2015, durante a primeira etapa de exibição do projeto, as imagens produzidas ganharam a forma de intervenção urbana, através de lambe-lambes colados nas próprias fachadas dos casarões em que essas senhoras vivem. Já em 2016, na residência LABMIS, Vanessa pesquisou sobre as possibilidades de interação entre imagens e sons e sobre a espacialização deste projeto. Questionou-se sobre as diferenças e semelhanças que poderiam emergir entre um trabalho realizado na rua e sua instalação no espaço expositivo do MIS.

As marcas, vestígios e resquícios emergentes da documentação produzida pela fotógrafa passaram, então, a ser observados por meio de outra perspectiva. O que pode ser chamado de real agora é lido por outro viés, que considera a experimentação artística como forma de propiciar diálogos com o público. Não estamos mais perante os casarões de Santos, mas seus detalhes, seus fragmentos, suas falas formalizam uma narrativa poética. A instalação trezeMARIAS foi construída pensando-se em espaços de troca, numa possibilidade de continuar aquelas conversas que Vanessa estabeleceu com as mulheres que vivem nos cortiços.

Vanessa gravou depoimentos das Marias, evidenciando suas individualidades por meio de relatos de experiências particulares e pessoais. Para a instalação, as falas foram editadas, potencializando e aglutinando os desejos e histórias dessas mulheres pela afirmação do feminino e pela luta por moradia. As vozes são múltiplas: não é uma Maria específica, são diversas. Uma paisagem sonora na entrada do espaço expositivo também relata o relacionamento de Vanessa com as Marias. São elementos que buscam convidar a aproximação com aquele lugar que foi o ponto de partida do trabalho e que o visitante observa nas imagens.

Em geral, em instalações audiovisuais costuma-se dar atenção primeiro às imagens e os sons emergem como um complemento. Neste texto, escrevi primeiro sobre a perspectiva sonora, considerando a importância da elaboração de Vanessa sobre essa questão ao inverter os sentidos de acesso ao seu trabalho. As imagens projetadas na instalação trezeMARIAS são divididas em duas telas, que apresentam pontos de vista do interior e do exterior dos casarões. Porém, a seleção foi baseada numa experiência intimista que privilegia fotografias de detalhes e fragmentos, criando diferentes aproximações com as Marias. Se por um lado, a instalação procura fugir da espetacularização da imagem, por outro,ressalta a presença destas mulheres por meio de suas vozes.

trezeMARIAS busca, então, abrir as portas e janelas daqueles antigos casarões. Porém, trata-se de um dar a ver subjetivo, um espiar pelas beiradas, que não procura fechar-se em uma única experiência. Pode-se observar que a instalação apresenta diferentes perspectivas para refletir sobre os vestígios da memória. A memória destas senhoras aqui apresentadas, de seus corpos, dos quartos onde vivem, dos objetos que estão lá. A memória das paredes, das casas, da cidade, seu patrimônio arquitetônico, visual e cultural. A memória processual do próprio trabalho de Vanessa. E, por fim, as sobreposições de todas essas camadas junto a memória do público que visita a instalação.

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